River film / Pedra-fantasma / Mar paradoxo

Escrevi esse poema em prosa-torrente que é uma espécie de 'tradução intersemiótica' da exposição RIVER FILM/PEDRA-FANTASMA/MAR PARADOXO, dos artistas Helder Martinovsky e Raquel Stolf (abertura em 26 de julho de 2017 no Museu da Imagem e do Som / MIS, Florianópolis). Estará ao lado de textos de Aline Dias, Cláudia Zimmer, Marina Moros e Patrícia Galelli.

river film → mira, aqui, no morro da boa vista, esses tubérculos de água recém-saídos nos gramais e que desovam, na neblina, as suas vagens de vapor e suas turfas de garoa antiga, e, então, a idade avança pelas ramas, de nevoeiro em nevoeiro, e a terra mansa principia a sua descida em cerração, e logo é nuvem erodida, logo é névoa, mas é a névoa ressequida, é a umidade sobre a pedra, é pedra apenas, e então é água, sumarenta, como um charco sobre a língua, e essa água lamacenta se desventra, e volve à luz, mas a luz se desarvora, toda fria, e o rio, enfim, é um começo de cinema, mas corre ainda em cenas curtas, sem sequência, e o rio irrora, o irial, primeiro o rio sobre o lameiro, o tu’yuka, e primeiro o rio no pedregoso, o tajahug, depois, os mesmos dois, que são dois rios, descendo as lâminas da lente como coisas de luz líquida, descendo prematuramente, a dois, como se a ciência do devir se consumisse em ir, somente, dois rios ainda mudos, mas sonorosos, o tajahug e o tu’yuka, dois rios de dentro, rios de sagas intestinas, correndo alheios/parelhos de 16 em 16 milímetros, em super-8, a oriente, correndo por dentro das velocidades, na sangradura das distâncias, mas lentamente, carregados do que lhes é alheio: folhas: tintas: talos: muros de arrimo: estrumes: bagres: todas as matérias mínimas da imprevisão subaquática: todas as predições dos calendários: toda previsão de marés altas segundo as próprias réguas maremétricas, mas, mira!, tudo isso ainda não é pedra, nada aqui, na correnteza, é penedia, porque o rio só se mantém pelo que não leva-se, porque o rio é fantasmagoria do que é fluência, fantasma de saliva, fantasma-lágrima, como documentar o que não há?, pois é preciso, então, tomar a pedra mais ao fundo, na rasura, uma pedra folhuda de húmus, e adivinhá-la sob a superfície, e sopesá-la, capturá-la, uma pedra só de cada rio, uma do tajahug, uma do tu’yuka, e levá-las para o rio inverso, como assinaturas do que não é idêntico, pois rio nenhum anda por si, e a que foi, milênios, do tu’yuka, do tu’yuka, do tu’yuka, rio tijucas, pode vir a viver o devir no tajahug, no tayabuy, no tayaye, no tujuy, no tajahy, no rio itajaí-açu, e essa pedra do itajaí pode sobrenadar tijucas, em aparições de seixos, pedras sem minério por debaixo do fantasma da via láctea, enquanto o cinema segue ileso em suas películas de natureza vaga, e o que nos move, expectantes, é capturar o ruído último e que nos corre pelo fundo desde a cessação da nascença, quando saímos para a tela com a feição ainda inédita e fomos vistos, finalmente, e entreouvimos a própria voz e não soubemos de imediato que éramos a voz essa, a voz além, tão prematura, voz de paradoxo, a voz de pedra nova e quadrada, ou a voz de pedra lisa quando bate, envelhecida, na própria entranha, no vozear que vem com a água ardente, desde a crista do corpo da boa vista, desde as corredeiras, desde as ourelas e ribeiras, como os assombros sobre a língua, ou como se tornássemos à pedra que muda o seu lugar e nos chega além, sobressalto a sobressalto, tomada pelos rios cadentes e tomada lentamente pela câmera, depois fonada num vagar silente para firmar o vozerio que sobrevém da suposição marinha, de cada micro-organismo, dos marulhos e das bulhas, baleotes e jubartes que encordoam os contra-baixos atonais do mar atlântico – e nunca nos diremos na primeira pessoa do singular, porque o pronome maior do mundo diz, completa, essa pessoa-oceano –, porque essa pedra intempestiva é pedra, por fim, latente, a pedra que pulula, a pedra que rebenta, dilapida-se, depreda-se, descentra, e é a pedra que faz espelho de dois rios nascentes, levando-os pela hidrosfera, tajahug, tu’yuka, uns rios aéreos, num vir a si, torrencialmente, para firmar no filme do firmamento o que, ali, não é mais rio e é pedra a menos, restando acesos, de 16 em 16 minutos, numa cena de silêncio insone como uns resíduos de cinema surdo, esses tubérculos de córrego que ovularam na neblina, essas aparições de águas que se revelam e, cedo, são salga bruta, como se, ao fim, toda voz fosse oceânica, e é necessário que avistes, aqui, na cena antediluviana, esse suspense de autoria que assina a pedra e a alunissa contra as ondas, e a alucina, como um rio que se desprende do cinema a descoberto e contra a vista do teu impróprio olho mira → mar paradoxo


DENNIS RADÜNZ




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