A Gazeta, Caderno Pensar. Vitória (ES), 10 de junho de 2017

       

      O SER E O OSSO

 

       Wilson Coêlho

 

 

           A priori, a obra intitulada “Ossama”, último livro de Dennis Radünz, referenda a dedicatória que ele me fez como uma “espécie de ‘direito de resposta’ a esses tempos ilegíveis, como ossos que se levantam para vertebrar nossa resistência”. Num certo sentido, parece que como uma tentativa de romper com essa ilegibilidade, o poeta elege um processo de desconstrução dos sentidos engessados pelas sintaxes e pelos maneirismos da escrita para, depois, executar diversos papeis, ora de ourives, ora de carpinteiro.

           Em seu paideuma, conforme conceito criado por Ezra Pound, Radünz ratifica os espaços da poética por onde transita, bem como o seu pertencimento à “sagrada família” quando seus poemas, em vários aspectos, reivindicam um tipo de parentesco com a crueldade de Artaud, o niilismo de Nietzsche, o inferno de Rimbaud, o mal de Baudelaire, a irreverência patafísica de Alfred Jarry, o branco da página e os dados de Mallarmé, o absurdo de Qorpo Santo, as errâncias de Sousândrade, o verso pétreo de Cabral de Melo Neto e tantos outros que compõem o universo por onde o poeta se movimenta.

      De imediato, o próprio título “Ossama” nos reporta ao poema radiofônico de Artaud, “Pour en finir avec le jugement de dieu” (Para acabar com o julgamento de deus), quando o poeta francês propõe ao homem passar por uma cirurgia ontológica para raspar a carne, em prol de um corpo sem órgãos, um corpo livre dos desejos construídos pela colonialidade cristã e psicologizada para dar lugar à vontade do ser que está em potência. A partir deste recorte se pode distinguir os estilhaços do ser que também estão bastante presentes na poesia de Radünz, como por exemplo, na segunda parte intitulada “2/ [área de embarque]” do poema As cidades sedadas, quando afirma que “despedidos dos inânimes da carne sobrenadam sem alerta os decaídos sobre o cimo incendiado do edifício: ceras leves sobre sua pele: acesas”.

           A poesia de Dennis Radünz não desfila numa avenida e tampouco vem em carros alegóricos, ou seja, não estabelece uma relação que condiciona o leitor a uma postura passiva como mero observador e, muito pelo contrário, o leitor ter que escrever junto no momento mesmo da leitura. Implica dizer que, nessa poesia, os versos não são compostos de frases prontas, mas esses se constroem palavra a palavra, onde os significados se completam na medida em que se lê, no percurso da apreensão a partir dos vocábulos, quando os sentidos se definem pelo fôlego. Resumindo, nos versos de Radünz, não existe uma premissa maior para que se elabore uma conclusão, aliás, nada pode ser concluído, considerando que, a leitura de seus poemas, trata-se de um processo de vivenciação que abre feridas, considerando que a lógica é indutiva, e as verdades, como na fenomenologia, são sempre provisórias. Podemos afirmar que Radünz realiza, em seus poemas, no que diz respeito ao esfarelamento do ser, um movimento centrípeto e centrífugo, ou seja, trata a existência, em determinados momentos como uma possibilidade de ajuntar os ossos desse ser e, em outros momentos, em explodir a pirâmide.

       Mesmo entendendo Ossama como uma obra eclética, apesar de sua unidade nas coincidências no aspecto do estranhamento que a mesma produz no leitor, faz-se necessário ater para alguns elementos que também constituem o seu processo de criação. Radünz utiliza minúsculas, mesmo quando se refere a nomes próprios, considerando que as situações são mais representativas que os personagens, como se os mesmos não passassem de meros entes por onde o ser se manifesta. Entre tantos, há um outro elemento que acentua o estranhamento manifesto na poesia de Radünz. São as palavras riscadas. As palavras riscadas existem no não-existir, ou seja, coexistem no ser e no não-ser, num exercício dialético onde a contradição se dá como uma idéia de que o ser e o não-ser são apenas os dois lados da mesma moeda. As palavras estão colocadas, afirmadas e, ao mesmo tempo, riscadas, negadas. Elas estão e se impõem como uma permanência do ente por onde o ser poético se manifesta. Se estas palavras nunca estivessem sido colocadas, elas não existiriam, mas na medida em que elas aparecem, mesmo que riscadas, têm o seu lugar e o seu discurso. Assim, o pres-ente e o aus-ente são duas formas do ente se manifestar como sentido do dito e do não dito.

     Enfim, “Ossama”, por mais que se possa pensar numa construção mosaica, no que diz respeito à sua liberdade poética de se socorrer da confusão, na medida em que elementos supostamente distintos se con-fundem, a obra é um conjunto de ossos/poemas despedaçados que compõem um corpo, um corpo pânico, no sentido de Pan, o deus grego da totalidade, onde as fronteiras entre o humor, o terror e o amor são praticamente invisíveis e se dialogam e se silenciam conforme os percursos estéticos.


Wilson Coêlho é doutor em Literatura Comparada

pela Universidade Federal Fluminense (UFF).