Jornal Valor Econômico, São Paulo, 30 de janeiro de 2017

         

       

       POESIA EM OPOSIÇÃO À ARTE COMERCIALIZADA 

       (ou A ANTECIPAÇÃO)  

 

        Luiz Costa Lima

 

 

      Em 1917, com o "urinol invertido", ironicamente intitulado de "Fonte", então ainda chamado de "objet trouvé", Marcel Duchamp (18871968) iniciava o que, a partir dos anos 60, se tornaria difundido como "readymade". O que começara como ironia e agressão contra a arte cultuada, converte-se no meio para a conjunção da arte com o mercado. Serializada por Andy Warhol (19281987), a imagem banal converte-se no ícone da pop art. Ao menos para os que a seguem, a arte passou a ser outra manifestação da cultura.
     É com agradável surpresa que vejo um jovem poeta de Blumenau (SC) contrapor-se à arte comercializada, transformada em uma manifestação a mais de ganhar dinheiro. Refiro-me ao pequeno "Ossama", de Dennis Radünz. A partir de um prévio "Exumação 1991", onde a palavra "corpo" se desintegra e enterra em linhas de "terra", a obsessão com o "readymade" assola a cabeça do poeta. Mas, se cabe falar em obsessão, é ela de sentido oposto àquele que foi legitimado por certa pintura americana. Assim se revela desde o "cidades sedadas", de que transcrevo a primeira parte: "Os inframericanos a sobrecriatura / escapes capturas as patrulhas de procuras / as provisões de previsão do tempo exposto / entre os nervos do espaço nas
póvoas ímpias / blindados blecautes blocausses / os silenciários sedados os
suicidados (...) e aa quarta feira seguinte pola manhaã / topamos aves a que chamam fura buchos (....)".
     Os versos seguem a ordem temporal invertida desde agora para bem antes. O termo de abertura "os inframericanos" salta, na estrofe seguinte, para a transcrição da Carta de Caminha. Entre a abertura e a passagem da carta, a tematização temporal invertida configura um anti"readymade".
    Se a marca da inscrição mercadológica rasgara a separação entre a imagem com arte e a imagem banalizada, o anti"readymade" não visa a recuperar a glória perdida da arte, mas assinalar que os termos "progresso" e "utopia" perderam o sentido. Eles já não cabem nos dicionários porque aqui e agora só cabem negócios.
     O anti"readymade" fala de um presente em que se destaca o "olha- podrida". Trata-se de uma transposição irônica-grotesca do cozido espanhol, que apresenta o poema cujo subtítulo é "dos suicidados pelas ditaduras": "tomam corpo/de um talho a outro talho/(e tão entibiados) os desaparecidos /deitam os lanhos em oliva/de um dente a outro dente/ou fumegam ou formigam/no fundo da olha-podrida".
        Mas seria arbitrário que, do mundo capitalista globalizado, o anti"
readymade" destacasse apenas as ditaduras. Não é preciso que elas estejam formalmente vigentes para que em "Liquidação" vigore a "mercadoria" em seu império, "os sedados subsolam /em beberagens repentinas /ou insonoros se desossam/ entre os dormidos da ermida" e a "consumação", onde "(se compra) silêncio", "e (se escuta) nas torres/os sinais do intransmissível".
      Pelo anti"readymade" não se restabelece o que foi posto fora da vida senão que o circuito da vida é agora feito por sêmens e insumos pelos quais a mercancia passa a cruzar (no duplo sentido do verbo). E o que circula em vida deixa de pertencer à ordem do orgânico para fermentar numa perversa "science fiction": "como se carros começassem a nascer-nos as arcadas/ e esses ossos de mandíbula absorvessem-nos os dentes". Por isso do "astronauta austral" se diz que "naturalizou-se cidadão contrarromano", assim como o final de "museu-mundo", "recolhe o que sobrou do sapiens (...): o dedo de galileu, o cérebro de einstein/ o último exemplar/ de ÉTICA a NICÔMACO". Pela compra e venda, o mundo assume outra direção.
       Na segunda parte de "Ossana", "Datação por Luminescência", o ossário geral assume dimensão mais local, como se tematizasse o mundo mais próximo do poeta. Daí que um poema fale da velha máquina Olivetti, de poetas nacionais, de sua própria ascendência familiar. Contento-me em destacar o "Cinquenta Cruzados Novos", de que apenas transcrevo a notável primeira estrofe:


       "os cruzados novos, custo caro de carlos,
       quando circularam uma soma de ocasos
       consumida em cruza de papéis e moeda:
       o gasto do rosto no inconsútil da cédula"


    Um mestre da cultura do livro, o poeta Drummond se torna objeto de outra ascendência. Seus pais mineiros foram substituídos por uma cruza de papel e moeda. E o rosto do poeta foi gasto no papel da cédula em que circula. Seu apreço se confunde com o valor monetário que o socializa.
      Embora seja muito difícil falar-se com acerto e, ademais, telegraficamente de uma linguagem que se antecipa, pareceu-me que seria algo de criminoso
deixar de fazê-lo.

      Quando falo de linguagem que se antecipa a si mesma, estou declarando que a mentação do anti"readymade", em seu inaugurador, Dennis Radünz, ainda vai muito além da formulação que a cumpre. Pois "Ossama" constitui um exemplar que suponho raríssimo de um livro que, antes de tornar-se obra-prima, assim já se anuncia.


"Ossama: Último Livro" - Dennis Radünz. (Ed.Letras Contemporâneas/Editora da Casa. 80 págs., R$ 30)


Luiz Costa Lima é crítico literário e escritor, 

autor de "Mímesis e Modernidade" e "A Ficção e o Poema", entre outros.