RESÍDUOS DE UMA PRIMEIRÍSSIMA EXUMAÇÃO

Maiara Knihs

 

 

       Esquecida a palavra sumário, eis que surgem os primeiros dois poemas  “I – DATAÇÃO PELO CARBONO” e “II – DATAÇÃO POR LUMINESCÊNCIA” e, logo após, o terceiro, a imagem seca-sanguinolenta, tal qual pedra encontrada em escavação. Na pedra, um inscrito: política da exumação.

 

Exumação:

1) “One transforms while exhuming” (

Derrida, “Biodegradables: Seven Diary Fragments”, Critical Inquiry, 4, 1989: 321).

2) Operación ligada al rescate de escritos, géneros o textos rechazados o bien desvalorizados por

los cánones “hegemónicos” (Williams, 1977).

3) Rearme de traços, restos e rimas – também conhecido como poesia – que, na semana em que

a Comissão da Verdade apresenta seu primeiro relatório, apresenta-se como um leitura política

da ditadura – história que precisa ser desenterrada e vinculada ao contemporâneo.

 

      Assim esse objeto pontiagudo-livro se apresenta. Pressinto cortes ao manusear o objeto, mas, dado que estou a ponto de fazer uma viagem arqueológica à cultura Inca, considero o material instrumento indispensável para a viagem. Sigo, primeiro voo, Florianópolis-São Paulo. Cidade-sítio da arkhé urbana. No pó preto que a recobre, desencontros dos eus. Entra o poeta lítico com seu instrumento cortante: palavra – e desentranha da poeira uma polis patética jesuítica. Surge na urbe um rastro, dois traços, camadas infinitas de restos da civilização. A sinalização, ao fim, choca. Choque do olhar do poeta que encontra, no fim, o olhar da urbe. Sobrevivência? Vida póstuma? Pervivência? Nachleben. Ossama.

      Recordo do embarque que virá, eis que Cruz, o velho Cruz e Sousa, aparece para dar Adeus. Viagem analógica, palavras duras, tempo duro, cenário em chamas, personagens mortos e o corvo ou a voz da companhia aérea. Última chamada soa never more. Última chamada para a cidade jesuítica, nunca mais. O fogo do inferno de Congonhas interrompe a correria da multidão e faz os indivíduos se unirem - como os espectadores no fim da tragédia grega. A dor, que emperra o fluxo também fatal da cidade, devolve o corpo ao Santo e, por instantes, o eu sai de si e redescobre o mundo. Agradece estar vivo, dá graças ao São Paulo e promete um novo modo de vida. A catástrofe vem junto com a catarse – a vida cotidiana perde o sentido, até as chamas serem apagadas e o fluxo da cidade voltar a correr fatalmente. Tudo volta ao normal. A imagem que resta ao poeta: devastação. A cidade sedada ganha a forma da previsão. O poeta faz do vazio do acidente experiência transmissível. O tema fóssil vira teatro míssil.

        Daí em diante o leitor é convocado a passear pela tragédia, à experi-ência da catarse, o eu desinfla, quase se perde. Possessão. Primeiro dói, depois, uma faísca de liberdade. O leitor, como o poeta, segue possuído desse Desconhecido. Enxerga na exumação um modo político de vida. O velho eu continua se esvaindo em forma de objeto: estranho habitante esse inquilino. O retorno recorrecorrente do p me atravessa. Paro e penso para pegar o p pelo sentido. O que restou da fogueira? Ossos, cinzas, pó e brasa. Faísca de vida nos destroços. A aliteração é a faísca sonora da repetição que possibilita a brasa, o desejo. Da arqueologia do eu, o desejo é suposto só pela repetição. O osso de uma leitura só se dá pela repetição. Ossama. O osso de uma escritura só se dá pelo que se ama.

         Repito, repito, repito, reitero, reitero, reitero. Iterum.

      O meu pressentimento estava certo, não eram cortes, eram queima-duras. Manusear este objeto queima. Entre um porto aéreo e um cemitério, bem no centro do caos, San Pablo.

         Coração do capital. Capital do consumo. Consumação desse fogo que faz buscar completude no consumo só faz cinzas? Caras iguais, corpos iguais, seres narcísicos anestesiados: a cidade sedada equivalente ao acidente trágico: muitos mortos, poucos corpos.

   Vende-se corpo nu. Compra-se corpo malhado, desenrugado, desengordurado. Quem vende: puta. Quem compra: madame. Cada qual com o seu. Repeteco da histØria.

 

             (pausa para vômito: o giro dessa roda gigante, apesar de fascinante, também nauseia)

         Voo mais um pouco, desço noutra capital desconhecida, Brasília, Lima. Mais um terreno para escavação a contrapelo do turismo. Um vídeo-palavras evoca Ruanda. Imagem que me vem: Hotel Ruanda. Um filme e um genocídio. Todo meu parvo conhecimento de Ruanda, da trágica Ruanda-Brasil: massacre dos tutsis pelos hutus, massacre dos seres singulares pelos globais (já dizia Guará aos Globais: - Cala boca, babacas!)

        Filme de terror: (avião, carro, máquina, técnica, tekhné, ars, arte, língua, meios.) A tecnologia CONTRA o sujeito. A vida perseguida pela morte. Filme surreal: (eu-avião, eutomóvel, egomachine, tecnoegologia, arteu, eu-coisa) contágio. A morte INVADINDO a vida.

      1680. RECEITAS PORTUGUESAS

   No caldeirão, cozinhar índios, bruxas, mulheres em geral, negros e pobres. Depois de mexer por uns 500 anos, ao fim, terá aspecto de Brasil do século XXI. Sugestão: servir frio, para afastar o aspecto podre do nome. Alguns ruídos retumbantes de passagem para a autoridade-mor: senhor ou pater ou pátria ou coronel ou comandante. 

    Não. O Nosso Senhor é um menino experimentalista que gosta de brincar no barro, na lama, na sujeira, no mangue. É um gênio criador. Veste-se de branco, mas gosta da guerra. Deus é brasileiro, sabe? E por isso todo poeta Cruz brinca de Jesus. Durante a vida, o poeta sabe que, à sua maneira, é habitado pelo criador do mundo, vazio. Ida trágica. Sua missão: desviar a palavra, incentivar fiéis a perderem o medo da morte, antecipá-la.

Ranger dos dentes

Ranger dos joelhos

Ranger dos ossos

Ranger dos olhos

 

     A memória é uma ilha, mas, a ilha de Cruz, meu senhor, é um inferno. Queima.

      Eis que chega outra música: soneto!

      Piripimprimprim

    Logo hoje que o dólar atingiu seu ápice você me lança esse cruzado? Cruzada era a encruzilhada de Cruz. Guerra sangrenta em que Parsifal (aquele de Wagner) assumia a figura de um falo.

   Ah, maldita ambiguidade do Salvador. Parsifal, segundo dizem, é o inocente, o puro. Com seu cavalo, ele resiste à tentação e salva a comunidade do Santo Graal. Essa história de sacrifício, herói, comunidade, já ouvi essa história antes... em algum lugar, não lembro onde... Ah, acho que foi no tropicalismo brasileiro. Ou seria no tropo tórpido do olhar europeu aos trópicos? Valha-me deus, no repeteco teço eu um eco dessa histØria?

      Ah, mas eu sabia que seguias a metodologia da intempestividade. É um método ótimo pra arqueologia do saber, do ver, do ser. Nos descruzamos uma, duas, três fronteiras. Frente e beiras, camadas de tempo e espaço. Aí habitamos no próprio endereçamento, nessas palavras-chamas que convidam aos infinitos reenvios.

O que resta do que exumo? Humo.

O que resta do que defeco? Eco.

O que resta do que mastigo? Mágoa

O que resta do que digiro? Diferença.

O que resta do amor? Humor

(te endereço como matéria para trabalho)

       Lima.

       Limar a pedra não é tirar o limo. Limar a pedra é fazer a pedra outra.

       1894. De repente me jogo numa imagem desconhecida que evoca uma discussão cruzesousiana: como chamaremos a bela Nossa Senhora do Desterro? Podemos chamar Ondina – deusa das águas – ou podemos chamar, homenageando o marechal de Ferro, Floriano-polis. Herdamos a homenagem ao militar. Arconte do arquivo-memória desta ilha, o militar hoje é sereia global.

    Nós resistimos ao Floriano, preferimos Ondina. Esta terra é apátrida! Matamos o rei! Matamos o general! Matamos a lei do sentido único! Libertamos dia-a-dia a imagem aprisionada!

      Queremos a sereia-víscera, a sereia patrícia em Itá, as imagens-outras, as foto-grafias! Sobre essa sereia, o canto e o encanto, três ou quatro sobreproposições:

     1) Isso não é um lamento, é um grito de ave de rapina. “Um sopro de vida”, Clarice Lispector.

     2) Na viagem do herói Ulisses, depois de voltar do reino dos mortos e antes de margear o território das sereias, aparece a feiticeira Circe. A bruxa, conhecida pelo canto queixoso e lânguido que transforma em porco aqueles que o ouvem, canta justamente na ilha de Aiaié – “lamento”, em grego. Na fábula de Homero, Kirké – “ave de rapina”, na língua grega – poupa os homens de Ulisses da morte e age como a conselheira que adverte o herói quanto ao canto das sereias. Essa advertência vai permitir a Ulisses, atado ao mastro do navio, que escute o que nenhum outro mortal poderia ouvir sem morrer: os gritos-cantos das sereias.

    3) As sereias, como as imagens, podem ser narcóticas e podem matar: encantam. As sereimagens precisam ser constantemente libertadas do discurso: o canto é som, é palavra pura, é palavra oca. As sereias como o canto nos atingem do coração às vísceras. Quando as sereias se unem ao discurso, daí temos o hino nacional. Quando nós momentaneamente a libertamos do discurso, aí temos a possessão, o contágio. As sereias são a coisa mais bonita do mundo.

    Segundo os arqueólogos das letras, as sereias operam uma sorte de inversão daquilo que o caçador faz com os animais, por exemplo, com vocalizações e com chamados que reproduzem o canto dos pássaros, a fim de atraí-los e depois matá-los.

    As sereias – mulheres-pássaros – transformam o homem na vítima do canto. Num primeiro momento, a música surgiu desse grito que atraía os animais para a morte. Esses animais, no entanto, foram pouco a pouco deificados e integraram-se aos rituais como oferta de sacrifício. A consequência da deificação desses animais foi a entrada da música (aquela que chamava a caça) para o terreno do sagrado. Seja no domínio anterior, o do profano, ou no domínio sacro, no entanto, a função fundamental da música, da sereia, da poesia, permanece a mesma: é a função do contato, da atração do que acontece na frágil e passageira fissura do encontro

       destrosso.

Maiara Knihs é mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, com a dissertação "O trágico na poética de Cruz e Sousa" (2014), e doutoranda no Department of Romance Languages and Literatures / Harvard University, em Boston (EUA), onde vive.