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CIÊNCIA DE FICÇÃO

 

salvaguardo no guardado de salvados

            um chumaço dos curativos ao contrário

uns tufos de inchaços bem imêmores

            os invernos duma lágrima sem farmácia

 

consequência não me causa mais efeito

            (o princípio dessas margens de hipótese)

            (o sereno das sirenes sem alarme)

            (o espelho meu inteiro no grau máximo)

 

mas a chuva não me cura as horas mortas

            em procuras pelas águas prematuras –

eu dedilho dois tufões ainda filhotes

            deixo vago meu lugar para tormentas 

 

SOBREAVISO DOS SOBREVIVIDOS

 

repousa

a pele provisória

a provisão de esperas

uns nomes devorados

ainda em polpa

 

respiram

alevinos e nenúfares

as vértebras visíveis

os açúcares salobros

sonados e insalubres

 

no aguaçal de sal comum

moído e iodado – eu

            porque sou inesperado

            o futuro me descansa

            debaixo da aparência

DESVIO PARA O DILÚVIO

 

           En el centro incólume del aguacero um pájaro cantando

          José Kozer

 

 

o ar baldio da chuva, às vésperas de abril,

as vértebras vasculha, vibra então as vísceras,

os tímpanos e as têmporas e os hímens do vazio

 

(PRIMEIRA PROVISÃO)

o nado é urgentíssimo

na travessia do sinal

 

:

 

o sol sem serventia – ventanias

se esfoliam no escuro da água falsa

e a cegueira as desossa: lascas

da lua fria nos alvéolos dessa rocha

 

:

 

o ar bravio estronda e estira-se o estio

nos rasos do baixio da gávea de vigília:

eu, sem mais nenhum brevê de vida

 

(NENHUMA PROVISÃO)

o ninho às escondidas

no colo do temporal 

   

GALÍXIA DE BOCAVULÁRIO

 

“a língua não tem osso”

ou discurso que mais diga,

mas a lábia na blandícia

esbarra em ondas de saliva

 

me non deves de negar parávoas

oh Lengoa Portoglesa Brasiléria

me non deves de negar parávoas

oh Lengoa Portoglesa Brasilívia

 

e, então, bafeja e babuja

o sabor bom ainda broto

se, no bojo dessa língua,

desabotoa o beijo e basta

 

            a si, língua de línguas

GHOST-WRITTER

 

eu, o escritor-fantasma,

no primeiro turno de serviço

desenredo uma resenha:

A literatura é uma das carnações mais finas da volúpia – desperta a libido que repousa, dentro, em estado de latência, ao toque nu de seus fonemas e morfemas, com estratégias de sedução que se avolumam, frase a frase, no interior do ritmo da língua. Literatura é também assédio, sublimação ou possessão carnal, entre outros tantos estados lúbricos do desejo, como quando um texto se insinua numa pulsão erótica que culmina em repentino êxtase. O êxtase do instante de leitura que é (como o é durante o orgasmo o desmembramento de tudo o que em nós é identidade), o lugar erradio em que o leitor se desorbita entre dois seres: o si mesmo e o ser no qual tornou-se, atravessado pelo texto (...)

 

num segundo turno,

por pura mantença,

prevejo um prefácio:

Toda história é uma véspera da criação do mundo etc.

 

no terceiro turno, pelo múnus,

reviso um Regimento Interno

e o meu sistema de sentires, de víveres e haveres:

            as minas d’água das palavras que dessangram

            a coisa escrita

 

– coisa de matéria infinitesimal,

            Desmone, coisa de acaso, Dürffer,

coisa de fisionomia, Dan, coisa

                        de sombra, Dhani, Daniel, Danton

e então despeço-me de ex eus,

                        despedidos, das coisas de errância,

Diocleciano, Da Szulh, Dimas,

                        e eu os remunero com uns manás

de húmus, depois durmo, duro

                        o infinito de uma frase – e é fato:

 

no em

e dentro de

e desde a enzima

substâncias levam o meu nome

de agora para a hora azul

            da cura

 

a hora sem nenhuma droga que me desabe o canto

para dentro dessa sáfara ou dos silêncios da safena

a hora extrema em que narcisos migram para o eco

e se enraízam como rosto fundo sobre a água-viva

 

desperto

na ante-sala do ossuário

(vértebra por vértebra)

adentro

e o que em mim verbera

é esse ofício ilocável de excessivo espectro:

 

            ali: aqui: margino a sós a minha própria ossama