O que exatamente você faz ou pensa estar fazendo quando faz edição?

Uma pergunta da editora catarinense de livros de artista Gabi Bresola (Miríade Edições) publicada no "Boletim #3" (junho de 2017) da Plataforma Parentesis.

Boletim #03 < plataformaparentesis.com >

GABI BRESOLA

O que exatamente você faz ou pensa estar fazendo quando faz edição? DENNIS RADÜNZ

Penso que estou fazendo arquivo, acervo, acúmulo, antídoto contra toda a desaparição; mas, enquanto edito, penso que também estou fazendo entulho, fardo de papel impresso, delírio de coisa gráfica; e esse meu fazer é falimento: um corte – porque editar quer dizer cortar – sem sutura; então, penso que faço prontuários sobre a página, ou paisagismo, ou demolição; e penso que só o que faço são contornos de tinta entre a mancha e a margem; o exercício senil e, ao mesmo tempo, viril de fazer caber na página o incabível que é a palavra, fantasmagoria de som que sobrepaira o sentido, ou vice-versa; e penso que edito, mas sou editado; uns pensam que faço fortuna crítica, outros, que faço apagamentos – como aquele remoto Liquid Paper – na superfície do texto dos outros; não sei exatamente o que faço quando edito: obedeço à qual algoritmo? sirvo à qual juízo final de manufatura ou de mercadoria? às vezes penso que edito para fazer parar o texto, coisa de vento, sopor, levantamento de um peso; edito para recordar, para fazer dissonar, ou para repetir o gesto da tormenta quando edita águas e árvores e fiações elétricas, e faz, ali, cidadelas rasgadas; e por quê edito, milimetricamente, os sinais diacríticos, o espaço invisível entre letra e letra e a semântica imprecisa de um português quase antigo, se, no final de dez anos, tudo acaba em nonada: nem mesmo um título curto na memória da página de rosto? penso que edito para abastecer de descobrimentos as minhas futuras visitas aos sebos, quando achar o livro feito pessoalmente, ao custo de dias e dias de labuta bovina, lá na poeira, ao preço de R$ 2, promocionalmente; penso que faço ninhos de papel-pólen quando edito: um papel-cupim; penso que, em Mogúncia, Guttemberg não sabia exatamente o que estava fazendo; penso editar uma bíblioteca toda só de água salobra; penso que edito para receber, como prêmio, o ISBN/ International Standard Book Number; prefiro pensar que, enquanto estou editando, a língua me ocupa, ela, usurária, e me faz uso; penso que estou perdendo tempo, mesmo quando, enquanto edito, penso estar fazendo a futura denúncia do presente perdido; penso que editar é praticar uma ciência exata para alcançar a imatéria infinitesimal da coisa vaga; penso que edito para procurar o Erro, o que nos sobrevém desde a origem, quando a língua ainda era o urro e os sinais que nos chegaram aqui, no Antropoceno, se perderam aquém e por debaixo de tanta baba verborrágica. Exato – eu penso em outra coisa enquanto edito.


Esta imagem, pergunta e resposta fazem parte do trabalho de conclusão de curso de Artes Visuais/Udesc “editora pessoa física pessoa jurídica” em que se pesquisa o ato de editar como uma prática artística. Esta pergunta foi disparada para editores de livros e publicações de artista. As respostas foram editadas juntando falas de editores e editoras brasileiros vindas por e-mail, vídeo, áudio, e misturadas com entrevistas e conversas já publicadas em diferentes mídias.

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