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CIDADES MARINHAS OU QUE SERIAM

 

 

        Tarde dessas, uma espuma saiu da onda e se espalhou na pedra e a maresia me chegou com emergência – andava próximo à Ponta do Coral e era o mar da Baía Norte aquilo que se mantinha a custo debaixo da maré antiga. Uma mulher chegou, mas não durou mais do que lembrança. Depois, dois ciclistas atravessaram dois sentidos contrários. Por último, um anzol foi mergulhado pela isca e tudo se ia assim, apressando-se para a calmaria. A única coisa que me dava existência, do coração ao cérebro, era a torrente de uma ideia muito bela para ser fixa: por quê as cidades mínimas do interior de Santa Catarina não têm também o seu mar mínimo?

       Que outros se ocupassem da engenharia disso – bastava olhar para os lados das ilhas dos Ratones e “ver” nascer o oceano-portátil em cada centro de cidadezinha, fosse em Águas Mornas ou Águas Frias, nas redondezas de Treze Tílias ou nos arredores da Coxilha Rica. Uns pedacinhos de mar perdidos na terra. Não o mar que as inundasse com outras hidrelétricas, as igrejas submersas e a ausência crônica de guarda-vidas, mas um mar pequeno, de margens à vista, com horas de nado e de resguardo para o defeso das espécies. 

       Que uns me acusem de alucinado. Outros me avisam que existe o lugar em Itapiranga, nos fundos da Argentina e nas origens de Santa Catarina, próprio para o teste dessa antevisão. Seria um mar desdobrável, distendido sobre o descampado, ou num terreno vago de prefeituras, como se o mar mínimo fosse um desses circos de rodeio que se montam de subúrbio em subúrbio, bastando que se busque um “gato” de energia elétrica no vizinho. O mar móvel pelos campos, serras e vales e mesmo nos altos de Urubici. Um mar trazido do Aquífero Guarani e depois salgado.

        Quando cheguei à minha idade de criança, o meu desejo de objeto era o mar de Balneário, na Camboriú de antigamente, mas eu o imaginava pouco depois do morro no Centro de Blumenau, com o rio Itajaí-Açu desembocando prematuramente, logo depois da ponte do Anel Viário Norte. Depois, fui vivido em Joinville e, ali, depois do morro, eles mantêm o mar secretamente, por entre os cepos dos mangues de Espinheiros – nos dias de melhor aroma, ainda é possível senti-lo. Agora, mais chegado ao imaginado que me traz a realidade, desejo levar o mar que tenho aqui, nesse meu campo de visão, a essas cidades que só não são celestiais porque não têm pores-de-sol de oceano. 

        Confesso que ando farto de tanta roda e carro, de tanta ideia cíclica, de tanta coisa que roda em falso nessa Ilha de Santa Catarina e mal espero o dia em que chegaria à localidade de Paciência de Dentro, por exemplo, a bordo dum veleiro levado pelo terral. O domingo de cidadezinha seria o mesmo, com suas ruas que desistem de si logo depois da primeira esquina, mas a poucos metros de Ituporanga se estenderia um mar mais vivo do que a água mais ao fundo da última baleia-franca. E os horizontes que existiriam nas cidades pequeninas? E a hipótese de achar petróleo nesses mares de hipótese? E que aceleramentos na economia! E que banhistas interminavelmente lindas! 

        Sei que muitos empreiteiros preferem fazer desertos. Outros investem no mercado de rios, transportando-os para o abate. Eu sou mais da água gratuita, ao alcance das pegadas sobre as águas e, claro, sei que não serei ouvido, que essa ideia de mares em miniatura não é viável, que essa Santa Catarina continuará antediluviana e seca, apesar da minha ideia.           

        Por causa dessa ideia, atravesso a Beira-Mar e chego ao Centro, na tumba do bar Miramar, esse lugar desértico de Floripa que o mar nunca mais irá tocar. Molho a sua colunata com um sal de lágrima para ver se essas pilastras de bar morto o tornam à vida, até que o mar, afastado e distante, de novo as alcance – trouxe a lágrima do mar que tenho íntimo, nas profundezas da minha infância. Começo meu oceano mínimo nesse lugar de estufa, feito semente de ostra guardada para a próxima glaciação.

 

          (Diário Catarinense, 5 de fevereiro de 2007)

MORADAS VOLANTES

 

 

        Para a soma incalculada de tudo o que tínhamos, chamávamos mudança. Móveis e objetos, e mesmo as coisas de imatéria, perdiam posição, fins e usos. Repentinamente, ficavam sem história. Era de se ver que até abríamos a casa, escancarávamos as portas, para ajudar nos trabalhos de saída, nos levantes e descidas, na carga viva, adiante, daquilo que eram as próprias vidas. E mais ou menos uma vez ao ano, estávamos mudados. De aluguel em aluguel. As moradas volantes.

        Tinha mesmo a suspeita de que por detrás da esquina se escondia, em cada casa, um novo veículo de frete, caminhão-baú, camionete ou ônibus de linha. Eles deitavam-se ali, focinho entre as rodas, apenas à espera de que de novo nos empacotássemos, panos e plásticos em volta, mudados para outra casa de passagem. Que nos cercássemos de chaves, criássemos codornas, cuidássemos da horta – havia sempre uma ânsia nos empurrando para a muda.

        Numa das casas, tivemos Stevie, um coleirinho, mais um beco e um poço. Na casa anterior, uma escada. Na seguinte, pesadelos. Havia uma poltrona que sempre nos alcançava, onde quer que fôssemos. Ela era preta e um dia teve serviço em consultórios médicos. Outra coisa era um tijolo de dois furos, com versos ▪. Minha mãe tinha o vestido raro, proibido por ela de ser usado pela própria. Meu pai tinha dois vícios. Eu tinha uma coleção de olhos baixos e sorrisos melancólicos.

        De uma casa fomos despejados, uma das mais antigas, porque recordo que, dentro de meus dois anos de idade, intimamente enorme, estranhava não chegar até os altos da torneira. De outra casa, fomos fugidos. Teve casa assombrada por escuro enorme, vindo do sótão, e pouco adiantava-nos a luz estar ligada: era uma escuridão de cima, aquela. Noutra casa, éramos contentes, eu e minha irmã, dois desenhos animados. Nunca tivemos bicicletas, andávamos sobre os próprios ossos. 

        Se me perguntassem o porquê daquele casa em casa, não seria com ruins ou ótimos que eu descreveria essa travessia beduína que nos perdeu um pouco, deixados para dentro, num qualquer canto ou quina de assoalho. Às vezes, imagino que – num 61 da José Pedro Theis ou numa Alameda Rio Branco, 425 – um pouco da mudança ficou perdido. A esperança, às vezes, falha, por causa da peça que ficou caída e, por desrazão técnica, atrasa o meu mecanismo. Outras vezes, ao contrário, posso volver àquela que quiser, como costuma-se voltar ao amor ido.

       Mas acontece: a porta de duas folhas de uma ficou na lembrança de outra moradia. O piso de madeira de outra se misturou com as paredes-cegas da primeira. Muito cimento era movediço. E houve o caso da moradia que mudou inteiramente de endereço, eu queria saber seu paradeiro, onde andará... com que inquilinos. No final de meia vida, todas as casas são a mesma, com os cômodos à escolha, cheiros, caixas ou não de correio. Exceto que, com um título de posse, nos era nenhuma.

        A casa dos outros.

       Se se conhecessem, elas, todas casas (e foram 22 em minha vida e meia), diriam de nós que tínhamos cantado; que houve uma mãe que nos assustasse com a ideia preventiva de que um dia haveria uma revolta dos brinquedos, nós que nos cuidássemos com o esquecê-los nas solidões da casa; que tínhamos comido sopas do mar e caldos de peixe; que as contas se acumularam, enfim; e elas, as moradas de endereços morosos, fariam um brinde em memória da nossa falta de destino. Um morreu. Outra desistiu da vida. Eu me sigo calmamente, tentando não chamar mais precipícios.     

        Elas que nos esqueçam, casas. Sinto saudade não de moradas, mas duma mesa descascada, porque ela havia nos seguido, feia como um cachorro, mas fiel, a quadrúpede íntima das estradas. Caso meu pai ainda vivesse, perguntaria: sabe de ‘m’, aquela uma, onde púnhamos as mãos nuas?

       E vou-me ainda, muito mudado. Penso com saudade nos móveis e objetos (quase nenhum ainda é vivo), embalados para a mudança, com seus bicos de filhotinho abertos para a esperança.

         (Diário Catarinense, 6 de agosto de 2007)

 

 

HIPÓTESE DE ASTRONOMIA

 

 

      Como ainda restasse, depois de toda a faxina, uma estrela aberta no canto da cozinha, pus-me a observar a pulsação, suspeitando aí a sua provocação explícita. Eu que havia hospedado toda espécie de animal perdido, nunca imaginei que uma estrela de terceira grandeza viesse deitar-se aqui, detrás do fogão de quatro bocas, entre uns tufos de cabelo, restos de inseto e uma poeira cósmica guardada desde a estação passada. Uma estrela invasora, e insolente até, se bem que um pouco indefesa, depois de haver andado uma imensidão de buracos negros, anãs brancas e nebulosas.

       Não recordo haver comprado a mercadoria estrelejante, que cheira a terra explodida, estrela nascida depois do núcleo dilatar-se e espatifar-se em mil milésimos de matéria mínima. Também não recordo havê-la cultivado, capturado, pagado a crédito, porque não acho a semente, a arma de fogo ou o extrato da conta.

      Fato é que uma bola de gás brilha no chão da cozinha porque, na verdade, perde energia. Brilha porque se enfraquece. E sinto pena desse corpo pouco luminoso, estrela desmilinguida que talvez tenha surgido por conta própria no chão do apartamento, espontânea como um cogumelo.  

        Dizem que assim é a vida. Tudo acontece num rompante e aquilo que ainda ontem era uma gigante vermelha, como o Sol, por exemplo, agora se acaba num corpo celeste de meia-idade. Uma estrela decai sem mais nem porquê. Ou seja, acordamos um dia e temos, súbito, trinta e cinco anos de idade. E nada nos livra da sensação de chegarmos aos trinta e cinco muito cedo, ou, ao contrário, a suspeita de que os anos chegaram tardiamente, depois de havermos gasto muito da vida entre nuvens, ainda que sidera caelo addis, diziam os romanos, não se deve acrescentar estrelas ao céu.  

        Claro, existem estrelas mais sombrias e basta recordarmos que, há pouco mais de sessenta anos, nazistas obrigavam judeus a usarem no braço uma estrela amarela de seis pontas, emblema que sentenciava seu tormento rumo ao campo de concentração. Por outro lado, existe a estrela-da-manhã, que é também a estrela-da-tarde, a estrela Vésper, planeta Vênus, que orientaria os amores.

        Mas uma estrela caída, supõe-se, é de natureza neutra, como o it da língua inglesa, ou como a reforma de gênero proposta para o português, em que ao “o” macho e ao “a” fêmea se somaria o @, indicativo do neutro, para que disséssemos estrel@, ocean@, terr@, angústi@, futur@, porque as coisas superlativas não têm sexo.

        Fora a filosofia, havia ali uma estrela e entreabria, esfomeada, o céu-da-boca. Uma estrela se alimenta de matéria, sei, e coleta massa de grandes nuvens que saem, em bando, pelo silêncio infinito do espaço. Aqui em casa, no entanto, tudo o que me resta é um naco de Matéria Hipotética. Dessa matéria tenho vivido. 

      Então a alimentei aos poucos, de colher, para que a pequena não fosse extinta. E, como estava saciada, sentiu sono e eu a ninei com uma cantiga de Ramil:

                     Estrela, estrela,

                        como ser assim?

                        tão só, tão só

                     e nunca sofrer – e a estrela se apagou, dormida como se houvesse gozado, depois de ter tocada a pétala do clitóris.

       Na madrugada, porém, me levantei e não havia nada naquele chão de estrela, exceto insetos e tufos de cabelo. Soube então o quanto é vão alimentar-se só de hipóteses, acrescentando estrelas a um chão que é mais de pedra, humo e raiz aérea. Mesmo assim, olhei a imensidão látea e, como não sou bom para nomes da astronomia, chamei-a apenas de Luz Aberta – ela me mandou sinal de vida e não falou em despedida.

 

           (Diário Catarinense, 28 de fevereiro de 2005)

 

 

O ESPELHO INÉDITO

 

 

        O vendaval andava em voltas quando se rompeu a corrente elétrica – um elétron estancou no meio do cabo de transmissão e tudo no entorno retornou à origem, na escuridão que avançava à semelhança de uma enorme onda embalsamada. Do lado de fora dos edifícios vivia-se a véspera da arrebentação do ar, da borrasca. Muitos saíram à rua com as mãos vazias na direção da atmosfera e pediam, tomados pelo nada, a continuidade imediata da energia. Todos faltos de televisão, os órfãos da carga positiva e negativa que lhes corre diariamente pelas casas, como um segundo sangue.

       Velas foram procuradas no avesso das gavetas, outros preferiram soluçar silenciosamente, mas a imensa maioria correu para o poente visto em sua inteireza, contra os postes apagados e um ou outro sinal fraco de avião cruzando os finais do ocaso. Pessoas se perdiam nas calçadas, pisando o pouco de clarão que ainda durava; outros subiam pesarosos as servidões, e a cidade chegava ao silêncio da antiguidade, cortado apenas por uma ambulância branca.

        Quase me acobertei debaixo de tanta bruma, sendo difícil diferenciar-nos de qualquer outro sujeito e mesmo dos objetos. Não é de gente a escuridão – o negrume chega-nos por fora, entrando no sistema nervoso central como o fio de água atravessa os veios dos maciços pedregosos. Então, a escuridão atravessava as direções e chegava a alcançar a superfície sonorosa das cigarras: um som sombrio. Mas o escuro não era um bicho extinto há século, dentro da história da eletricidade?

       Apesar do imprevisto, eu continuava respirando espontaneamente – ou procuraria a vela de um qualquer aniversário; ou desceria a escadaria até a caixa-de-areia das crianças; ou beberia água às cegas; ou cantaria numa voz antiga; ou veria do alto do apartamento como as pessoas se aquietam; ou apalparia o interior do refrigerador com ameaça de degelos; ou acenderia somente na memória uma fogueira pré-histórica; ou escreveria uma carta para ela, às escuras; ou andaria nu e despedido da minha própria sombra. Eu cruzava a casa com cuidado para não pisar nas poças de escuro e a tempestade se avisava em relâmpagos, que eram as certidões da sua nascença intempestiva.   

       Que as pessoas armazenassem ouro, alumínio ou prata, que são bons condutores, mas não, as casas têm excessos de porcelanas e de plásticos, vidros e borrachas, toda espécie de isolante, tudo aquilo que interrompe na raiz a torrente elétrica. A eletricidade estava gasta e era a mesma coisa que o petróleo acabado e a água extinta.  

       Que outros tocassem as fendas das tomadas com as chaves; ou se ocupassem de subir aos bocais de lâmpada atrás do último “âmbar amarelo” (ēlektron, em Grego). A mim bastava atravessar o tempo de escuridão com uma distração incômoda: será que essa mesma escuridão de fevereiro era recuada a 1385 nos calendários persas ou era acelerada a 2257, na datação do calendário rúnico? Foi essa a insânia provisória que me passou muito o tempo: o escuro duraria ali 872 anos, do presente ao passado e adiante. 

       Desde quando vinha a escuridão intérmina? De onde saía tamanha sombra sobre sombra? Por que uma cidade às escuras nos desola mais do que qualquer outra angústia? Resta só dizer que um telhado de zinco foi arrancado, árvores foram abatidas, coisas ficaram sem asa e a tempestade, afinal, não veio, só umas gotas frias dentro do calor muito tropical.

      Finalmente, quando as pessoas começavam a andar em círculos, a luz voltou – a energia estava de novo ao alcance dos interruptores! Quando a luz voltou, estávamos mudados. Nos olhávamos no espelho inédito. 

       Saíamos de novo para a luz e ali, na superfície líquida dos espelhos, era a vida que voltava. Por cima dos ombros, no fundo da imagem, víamos de novo o começo de tudo.

 

         (Diário Catarinense, 12 de fevereiro de 2007)

 

À MARGEM DO RIO ESQUERDO

 

                 “Lágrimas caíram dos olhos da adolescente Daniela Machado Albuquerque, de 16 anos, quando os inspetores                 da Polícia Civil pediram para que ela ficasse parada no exato ponto onde tropeçou e se desequilibrou, e que               apontasse para o Rio (...), onde o filho de dois meses, Samuel Machado Albuquerque, que estava em seu colo, caiu na quarta-feira e morreu afogado.” - Diário Catarinense, 25/06/05. Seção Polícia, p.24. 

 

 

       As águas brotam de si mesmas, na corredeira, e o remoinho envolve, como um cueiro, o bebê que desaparece, depois de flutuar, pesando, a boca em busca de uma bolha de ar – eu juro que não joguei o meu neném –, a correnteza o carrega contra o pedregulho, e as águas não cessam de nascer, nas barrancas, água procriando água, o matando, mergulhando até o fundo dos pulmões. Às vezes, o fim é muito cedo e o começo nunca chega.

        Ele era a minha vida... – e as lágrimas mornas de Milena, por causa do vento, logo esfriam sobre o rosto, como se geassem. Sentia ainda o peito que lhe doía, aréolas, mamilos, sugados pelo morto com uma fúria que, às vezes ela pensava, parecia de um predador. Amava esse menino mais do que tudo no mundo, juro. E colocava argila sobre os seios, para cicatrizar, enquanto Natanael, no primeiro mês, ainda não sabia mamar direito.

          Eu acho que tonteei e ele me escapou...

       Milena observa agora o rio esquerdo, nascido do rio Benedito, à procura do sentido que nunca basta, porque andava pela margem com o seu filhote e o trazia, seco, depois de o haver trocado... Podia vê-lo respirar, no colo, dormindo, e ela recorda que se sentia uma espécie de fêmea de gato-do-mato, guardando sua cria a salvo dos outros animais e, por causa disso, o bebê, dentro do abraço morno, entreabria os olhos, como se sonhasse, uma vez ou outra.  

        Milena não podia mais. O rio escuro ladeado pelo sassafrás florido era o poço que consumiu o seu menino, a menos de um mês, em menos de um minuto. Acho que tive uma tontura, parei pra descansar, escorreguei na pedra, corri desesperada pela barranca e ainda vi quando o meu Natan sumiu, pouco antes daquela queda d’água. Milena e o perito da Polícia andaram pelas margens como se pudessem resgatá-lo, ainda, após, ou resgatarem o instante em que o bebê vivia, antes que se esgotasse, bem menos do que um nome, debaixo da morte.

       Natanael porque o pai dele, antes que eu engravidasse, dizia que era pra ser um dom de Deus e, parece, esse nome quer dizer isso – não sei quem disse. Depois, brigamos todo dia e ele, o Alípio, um Espíndola, não quis mais casar comigo. Registrei o Natan: eu assumi sozinha. Nem sei se esse mão-pelada do Alípio se importou com o fim do filho. Devem ter contado. Pouco me importa. Foi naquela pedra pontuda – Milena chora, agora em desespero, enquanto muda o ar e, breve, a trovoada deve varrer o Vale. 

         Desde o exame pré-natal que a menina tinha a sensação de que o Natanael não duraria. Foi nascer prematuramente e ele quase não vingou, ainda mal-formado, com uma pele fina ao invés de unhas. Ficou dias e dias na estufa. Não era o depois, mas o antes – desde que ela o viu, na ultra-sonografia, uma intuição de mãe a abateu: “é miudinho demais, parece uma piavinha”. Não contou a ninguém. Decidiu esquecer. Como quando viu o Lipi pela primeira vez na rua e teve a intuição: “Eu vou dar um filho para esse homem”. Milena tinha medo: previa. Era uma espécie de vidente.   

         O inspetor da Polícia a chamou para uma ribanceira que chegava ao centro da corredeira – não precisaram palavras, somente o dedo da acusação, ereto, que incriminava o rio esquerdo. Milena tonteou um pouco, tinha o estômago revolto, e os seus olhos rastreavam aquela água de pedras onde o menino sumiu, boiando, de bruços, num fio de fôlego, o coração tomado, carcaça de coisa ainda viva aninhando-se na morte intestina.

         Milena mergulhou para dentro, atrás de mais palavras, porque o silêncio, nesse lugar, podia dar margem para dúvidas, boatos, ou suspeitas – dois anos antes, ela tinha se chocado com o assassinato de um casal na Linha Santo Antônio, em Passos Maia, e com o caso da filhinha deles, de um ano e oito meses, que foi achada morta à beira de uma estrada de barro, depois de haver engatinhado por cinco dias. Chorava a cada dia de chuva, quando imaginava a criança sem nenhuma proteção, sem comida, sem nenhuma palavra nela que soubesse pedir socorro. Milena levou tempo para apagar a cena que lhe pesava na imaginação.

           Eu NÃO sei mais dizer o que me aconteceu.

      O rio guincha, range, gargareja, marulha, gorjeia, rouqueja. Vozearia do rio que desce sobressaltado em um sem-número de quedas, desde as nascentes quase virgens. Uma água que, depois, se mistura ao Cromo e ao Níquel, a água que se contamina nas pastagens e lavouras, mas, ainda assim, desova o seu esperma que escoa e fecunda a zona pelúcida das margens. Rio neonato. Rio de roubar recém-nascidos. O rio que corre fora de todo esse destino – indiferente.  

            Delegado, eu juro: nunca jogaria o meu neném na água.

            Caso provisoriamente esclarecido.

 

            •

 

            Deus é novo.

        Milena está em casa, diante do espelho, e apalpa os seios nus. Muito clara (mais ainda quando pálida), a descendente de alemão com polonesa sonhava em ser mais escura, como as bugras bonitas de boca carnuda. Ninguém a entenderia. Zerar. Nascer de novo. Refazer a vida. Antes tivessem casado na igreja, como sonhava sua mãe, devota de São Estanislau de Kostka. Antes nunca tivessem tido Natanael. Antes ela tivesse caído, não o menino. Eu sei que não fui eu quem jogou o meu neném. Não quis lembrar-se, mas lembrou que nas últimas semanas da vidinha de Natan andava descuidada, não lhe dava banho, ela própria mal se lavava e, mais de uma vez, se esquecia da hora da mamadeira. Eu nunca iria abandonar um filho meu.

         Milena estremeceu quando recordou que por causa do berreiro dele por uma noite inteira, talvez por cólica estomacal, ela o levantou do berço e gritou que se ele não calasse imediatamente ela o “daria para os peixes”. Os seus lábios, muito finos, ficaram roxos. Era brincadeira de criança, quando sua mãe contava a história do anel de ouro achado na boca de um peixe enorme (era salmão, na fábula, mas ela conseguia imaginar no máximo um jundiá). Milena teve de fechar os olhos, por medo – Natanael era o seu anel de ouro, o seu sonho, aquilo que um dia ela fez com Alípio; nunca iria acabar-se assim, no rio. Eu acho que esse acidente nunca aconteceu... E Milena vestiu a blusa, bebeu um copo de leite morno, decidiu dormir – um comprimido apenas. Uma trovoada dura e seca bateu na atmosfera.

          Milena deitou-se, de lado, abraçada a um montinho de pano, como fosse o seu Natanael, e colocou dois dedos nas narinas do pano para ver se o filho ainda respirava. Chorou. Chovia. Uma grossa camada de água caía sobre os ribeirões, sobre os arrozais, sobre as caixas d’água e sobre o rio esquerdo – um outro rio, às escondidas. Um rio que fica desviado do seu leito, o rio que dilatou o seu destino a ponto de correr fora da margem e levar as águas para um outro fim, que não o mar.

            A lágrima espessa desceu-lhe pelo rosto: como virasse a cabeça, caiu dentro do ouvido. O som da chuva se abafou e a lágrima lhe chegou ao tímpano. Um barulho de mundo submerso, de coisas abafadas e espessas. Milena pensou que, naquela água, o filho cumpria a missão de piavinha, nascido para cruzar as águas doces, a correnteza, procriando com outras piavinhas, dizendo a sua primeira palavra, andando de bicicleta pela margem, o anfíbio, peixe de patas.

        Depois, por causa da lágrima que se afundava no ouvido, Milena pensou que ouvia, no fundo lodoso do rio, o balbucio de Natanael: urgente ir salvá-lo, suspender o exato instante em que ele escapou, ou caiu, ou foi jogado. Imediatamente. Ela iria correr até a nascente do rio esquerdo e cortaria as suas águas como quem arranca uma raiz, depois a queimaria, secando as corredeiras, as quedas, remansos, usinas, erosões – o rio seco, ressecado, na secura, em pedra.

           (Diário Catarinense, 8 e 15 de janeiro de 2006)